Entre 1 e 2 anos, criar uma rotina de sono não é mais sobre mamada noturna ou “regressão dos 4 meses” — é sobre
lidar com uma criança que já negocia, testa limites e sai da cama para pedir “mais uma história”. A rotina que
funciona nessa fase combina sequência previsível (banho, pijama, história, cama, sempre na
mesma ordem), quantidade de sono adequada (11 a 14 horas por dia, incluindo sonecas) e
limites gentis e consistentes diante da resistência — sem depender de métodos formais de
treino de sono, que este guia não recomenda nem descarta (veja o porquê mais abaixo).
Em resumo
- Crianças de 1 a 2 anos precisam de 11 a 14 horas de sono por 24 horas, contando sonecas.[5]
- A rotina precisa ser consistente na sequência, não necessariamente rígida no horário exato.[1][2]
- Por volta dos 18 meses, muitas crianças começam a deixar de fazer duas sonecas e passam para uma só — com bastante variação individual.[6]
- Se a criança sai do berço mesmo com o colchão na posição mais baixa, é hora de considerar a cama com grade baixa.[6]
- Pedir água, pedir “mais uma história” e chamar repetidamente são comportamentos comuns e esperados — não sinal de que algo está errado.[4][6]
Por que essa fase é diferente da rotina de sono do bebê
Se você já leu por aqui sobre sonecas e janelas de vigília do recém-nascido, ou sobre a criança que acorda
muitas vezes à noite no primeiro ano, vale entender por que este artigo é diferente. Entre 0 e 12 meses, os
desafios de sono giram em torno de fome, mamadas noturnas, marcos de desenvolvimento e a chamada “regressão dos
4 meses”. Entre 1 e 2 anos, o cenário muda: a criança já entende rotina, já tem linguagem (mesmo que limitada)
para negociar, já consegue se levantar e sair do berço ou da cama sozinha, e começa a testar até onde os
limites vão. A resistência na hora de dormir — chamar os pais de volta, pedir mais uma coisa, se recusar a
deitar — é o desafio central dessa fase, não a fome ou o sono fragmentado por si só.
Quanto sono uma criança de 1 a 2 anos precisa
O consenso da Academia Americana de Medicina do Sono, submetido para endosso conjunto de sociedades pediátricas
(incluindo a Academia Americana de Pediatria), recomenda entre 11 e 14 horas de sono por período de 24
horas para crianças de 1 a 2 anos,
somando o sono noturno e as sonecas do dia.[5] Não existe um número mágico igual para todas as
crianças dentro dessa faixa — o importante é observar se sua filha ou filho acorda descansado, tem disposição
ao longo do dia e não apresenta sonolência excessiva fora dos horários esperados.
Como montar a rotina — sem depender do horário exato
A base de uma boa rotina de sono nessa idade não é o relógio, é a sequência. Sociedades de
pediatria destacam que uma rotina consistente — mesmos passos, mesma ordem, todos os dias — ajuda a criança a
regular o próprio sono, e que a ausência de rotina está associada a mais dificuldades emocionais e
comportamentais.[1][2] Isso significa que uma rotina como “banho → pijama → escovar os dentes →
história → luz apagada → cama” pode acontecer às 19h30 num dia e às 20h no outro, sem prejuízo — o que importa
é que os passos se repitam sempre na mesma ordem, de forma que a criança saiba o que vem a seguir e o corpo
comece a se preparar para dormir.
Isso é diferente de um método rígido, que costuma prender a família a um horário fixo ao minuto e a regras
inflexíveis. Uma rotina previsível na sequência dá à criança segurança sem exigir perfeição dos pais.
Transição de duas sonecas para uma soneca só
Por volta dos 18 meses — com bastante variação de criança para criança — muitas começam a resistir à segunda
soneca do dia e passam a fazer apenas uma soneca, geralmente após o almoço.[6] Não existe uma idade
exata em que isso “deveria” acontecer: alguns sinais de que a transição está próxima incluem dificuldade para
pegar no sono na segunda soneca, ou a criança começar a dormir tarde demais à noite por ter dormido demais de
dia. Não é necessário forçar a mudança — observar o padrão da própria criança por uma ou duas semanas antes de
ajustar a rotina costuma funcionar melhor do que cortar a soneca de uma vez.
Transição do berço para a cama de grade baixa
O sinal mais claro de que está na hora de trocar o berço pela cama com grade baixa é prático: a
criança consegue sair do berço mesmo com o colchão já na posição mais baixa.[6] Nesse
ponto, manter o berço deixa de ser mais seguro do que a cama — o risco de queda ao escalar a grade é maior do
que o risco de a criança sair de uma cama baixa. A transição costuma ser mais tranquila quando a rotina em si
(sequência de passos antes de dormir) permanece igual, mudando só o móvel.
Lidando com a resistência na hora de dormir — sem rigidez e sem negociação infinita
Pedir água, pedir “mais uma história”, chamar os pais de volta ao quarto várias vezes, chorar quando a luz
apaga: tudo isso é comportamento comum e esperado entre 1 e 2 anos, não um problema a “corrigir” com
dureza.[4][6] Fontes voltadas a essa faixa etária sugerem que o meio-termo entre ser permissivo
demais (ceder a cada pedido, o que estende a hora de dormir indefinidamente) e ser rígido demais é estabelecer
uma regra clara, pequena e sempre igual — por exemplo, “um copo de água e uma história por
noite” — e manter essa regra com calma e consistência, sem punir a criança por testar o limite.[6]
Existe também um princípio, usado por alguns pediatras e psicólogos, de dar à criança um “passe” físico e
limitado — um cartão ou objeto que ela pode trocar por um pedido extra (água, um abraço, uma pergunta) antes de
dormir, e que perde a validade depois de usado[7]. O material que descreve essa técnica não foi
desenvolvido especificamente para a faixa de 1 a 2 anos — por isso vale mais como inspiração para criar uma
regra simples e visual do que como método pronto a seguir à risca nessa idade.
O que a pesquisa disponível não mostra é que métodos formais de treino de sono — como deixar
a criança chorar sem intervir por períodos determinados — sejam eficazes ou recomendados especificamente para
crianças de 1 a 2 anos. Não há evidência suficiente, nas fontes consultadas para este artigo, para afirmar que
esses métodos funcionam nem que não funcionam nessa idade. Por isso este guia fica no que está mais bem
sustentado: rotina consistente, quantidade de sono adequada e limites gentis — não em métodos rígidos com nome
de marca.
Ficar até dormir ou sair antes?
Essa é a dúvida prática mais comum nessa fase, e este guia prefere ser honesto sobre o limite do que sabemos:
as fontes consultadas para este artigo não trazem uma resposta fechada sobre se é melhor ficar no quarto até a
criança dormir ou sair antes disso. O que está mais bem sustentado é o princípio geral de consistência —
qualquer que seja a escolha da família, repetir sempre o mesmo padrão (ficar sempre, ou sair sempre depois do
mesmo ritual) ajuda mais do que alternar de um jeito para outro conforme o cansaço do dia.[1][2] Se
a criança chorar quando você sai, uma resposta calma e breve — voltar para tranquilizar sem ligar a luz nem
reiniciar o ritual inteiro — tende a funcionar melhor do que ignorar completamente ou entrar em uma negociação
longa.
Quando o despertar noturno pode ser sobre separação, não sobre sono
Entre 1 e 2 anos — e principalmente conforme a criança se aproxima dos 2 e 3 anos — parte da resistência para
dormir e dos despertares no meio da noite pode estar ligada à ansiedade de separação, não a um problema de sono
em si.[3][6] Manter a rotina noturna consistente também ajuda nesse componente emocional, porque dá
à criança previsibilidade sobre o momento de ficar sem os pais por perto. Se a resistência da sua filha ou
filho parece muito mais sobre “não quero que você vá embora” do que sobre “não quero dormir”, temos um
conteúdo específico sobre ansiedade de separação em crianças de 1 a 2 anos que pode ajudar a entender esse
lado emocional com mais profundidade.
O que evitar
-
Telas nas 1 a 2 horas antes de dormir. Recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria é
evitar o uso de telas (celular, tablet, TV) nas 1 a 2 horas antes de deitar, já que a luz das telas contribui
para o bloqueio da melatonina e pode dificultar o início do sono.[8] -
Ceder a cada pedido extra sem limite algum. Isso tende a esticar a hora de dormir
indefinidamente e não ajuda a criança a se acalmar.[6] -
Punir, gritar ou envergonhar a criança por chamar repetidamente ou resistir a dormir — é
comportamento típico da idade, não desobediência proposital.[4][6] -
Trocar de rotina o tempo todo ou pular etapas por cansaço dos pais — a falta de consistência
tende a piorar, não melhorar, a resistência ao longo do tempo.[1][2]
O que é esperado nessa fase e o que merece atenção
| Pode ser esperado | Sinal de atenção | Sinal de urgência |
|---|---|---|
| Pedir água, história extra ou chamar os pais algumas vezes antes de dormir | Resistência tão intensa que a criança nunca consegue relaxar mesmo com rotina consistente por semanas |
Ronco, respiração ruidosa nova ou pausas aparentes na respiração durante o sono — este sinal tem um artigo próprio, com os critérios exatos de quando é esperado e quando é emergência |
| Um ou dois despertares noturnos ocasionais | Sono muito fragmentado quase todas as noites, afetando o humor e a disposição diurna da criança de forma persistente |
|
| Certa variação no horário de dormir dia a dia | Dorme visivelmente menos que 11 horas por 24h de forma consistente |
Quando procurar ajuda
Resistência na hora de dormir, alguns despertares noturnos e a fase de transição de sonecas fazem parte do
desenvolvimento típico e, na maioria dos casos, melhoram com rotina consistente e limites gentis, sem exigir
avaliação especializada. Vale conversar com o pediatra se o sono fragmentado for praticamente todas as noites
por várias semanas, se afetar claramente o humor e a disposição da criança durante o dia, ou se você notar
sinais que fogem do comportamento comum descrito aqui.
Um sinal específico merece atenção à parte: se a criança ronca com frequência, dorme de boca aberta ou parece
ter pausas na respiração durante o sono, isso não costuma se resolver só com ajustes de rotina — temos um
conteúdo dedicado a ronco e respiração pela boca durante o sono infantil que explica quando esse sinal pede
avaliação profissional.
Quem pode ajudar
O pediatra é o primeiro ponto de apoio para qualquer dúvida sobre sono nessa idade, incluindo
avaliação de quantidade de sono, padrões atípicos ou sinais físicos como ronco. Pelo SUS, a Unidade Básica de
Saúde é a porta de entrada para acompanhamento pediátrico de rotina. Quando a resistência para dormir parece
muito ligada a ansiedade, medo ou dificuldade de separação, um psicólogo infantil pode ajudar
a família a entender e lidar com esse componente emocional. Também existem consultores de sono
infantil no mercado brasileiro — vale saber que essa não é uma profissão regulamentada no Brasil, então
formação e abordagem variam bastante entre profissionais; não substituem o pediatra em caso de dúvida sobre
saúde física da criança.
Fontes
- Sociedade Brasileira de Pediatria. “Como os pais podem fazer para estabelecer uma rotina de sono para as
crianças.” sbp.com.br - Sociedade Brasileira de Pediatria. “Sono infantil: por que a rotina é tão importante e como fazer isso”
(2016). sbp.com.br - Sociedade Brasileira de Pediatria, Grupo de Estudos do Sono. “O sono da criança” (2017). sbp.com.br
- HealthyChildren.org (American Academy of Pediatrics). “Toddler Bedtime Trouble: 7 Tips for Parents”
(revisado em 25/08/2022). healthychildren.org - Paruthi S, et al. “Recommended Amount of Sleep for Pediatric Populations: A Consensus Statement of the
American Academy of Sleep Medicine”, endossado pela American Academy of Pediatrics. Journal of Clinical
Sleep Medicine, 2016. pmc.ncbi.nlm.nih.gov - Nemours KidsHealth. “Toddler Sleep: 1- to 2-Year-Olds” (revisado em junho de 2019). kidshealth.org
- American Psychological Association. “The Bedtime Pass” (de Meltzer, L. J., & Crabtree, V. M., Pediatric
Sleep Problems: A Clinician’s Guide to Behavioral Interventions, 2015). apa.org - Sociedade Brasileira de Pediatria. “#MenosTelas #MaisSaúde” (2024). sbp.com.br
