Quando o bebê começa a engatinhar e o que fazer se ele pular essa fase

Leitura recomendada

Conteúdo preparado pela equipe editorial com base nas fontes citadas. Ainda não passou por revisão profissional especializada.

Não existe evidência científica atual que sustente a ideia de que pular o engatinhar cause problemas de leitura, coordenação ou qualquer outro atraso no futuro.[4] Essa preocupação vem de uma teoria de mais de 60 anos — desenvolvida por Glen Doman e Carl Delacato nas décadas de 1960 e 1970 — que hoje é considerada ultrapassada pela pediatria. Bebês que vão direto de sentar para ficar em pé, sem passar pelo engatinhar clássico, não têm, isoladamente, motivo de preocupação. Se o seu filho nunca engatinhou “do jeito certo”, respire fundo: muito provavelmente não existe jeito certo.

Em resumo

  • A maioria dos bebês começa a se movimentar pelo chão — engatinhando ou não — em algum momento entre os 7 e os 11 meses, mas a variação individual é grande[2][3].
  • O engatinhar não é considerado um marco obrigatório de desenvolvimento; ele nem entra mais na lista oficial de marcos usada pelos pediatras nos Estados Unidos[8][10].
  • Não há nenhuma pesquisa atual que ligue “pular o engatinhar” a dificuldades futuras de leitura ou coordenação — a teoria que originou esse medo já foi desacreditada[4].
  • Existem vários estilos de deslocamento antes de andar, todos considerados normais: de mãos e joelhos, “de urso”, rastejando de barriga, sentado se arrastando (bumbum-scooting), de lado feito caranguejo, ou até rolando[5].
  • Tempo de barriga supervisionado desde os primeiros dias em casa é a forma com mais respaldo para ajudar o bebê a ganhar força e se movimentar — não existe produto que “ensine” a engatinhar.
  • Andadores com rodinhas são considerados perigosos e desnecessários pela Sociedade Brasileira de Pediatria, que defende a proibição de venda no Brasil, como já ocorre no Canadá desde 2007[1].

Quando o engatinhar costuma começar

De modo geral, é comum que os bebês comecem a se arrastar ou engatinhar por volta dos 9 meses, com uma janela mais ampla que costuma ir de aproximadamente 7 a 11 meses[2][3]. Vale reforçar: essa é uma faixa aproximada, não um cronograma fechado. Cada bebê desenvolve força de tronco, equilíbrio e coordenação no seu próprio ritmo, e fatores como o tempo de barriga que ele teve, o espaço disponível para se mover e até o temperamento da criança influenciam quando (e como) esse movimento aparece.

Por isso, comparar o seu bebê com o primo, com o filho da amiga ou com o “bebê perfeito” das redes sociais raramente ajuda. O que importa é observar se ele está, aos poucos, ganhando força e curiosidade para explorar o espaço ao redor — não bater uma meta de calendário.

Pular o engatinhar é normal?

Sim. Hoje o engatinhar não é tratado como um marco obrigatório do desenvolvimento motor. Um sinal claro dessa mudança de entendimento: nos Estados Unidos, o CDC (Centers for Disease Control and Prevention) removeu o engatinhar da lista oficial de marcos que os pediatras acompanham em consultas de rotina, em uma atualização de 2022 — justamente porque uma parcela relevante de bebês com desenvolvimento típico nunca chega a engatinhar da forma clássica, sobre mãos e joelhos[8][10]. É importante deixar claro que essa é uma decisão de política de saúde pública dos Estados Unidos, não uma posição da Sociedade Brasileira de Pediatria — mas ela reflete um consenso mais amplo entre especialistas de que engatinhar é uma etapa comum, e não uma etapa essencial.

Pesquisas mais recentes sugerem que uma proporção significativa de bebês — estimativas apontam algo entre 4% e 15% — nunca chega a engatinhar sobre mãos e joelhos da forma “clássica”, e vai direto de sentar para ficar em pé e andar. Até onde as pesquisas mostram, não há associação consistente entre o caminho que o bebê escolhe até andar e seu desenvolvimento cognitivo ou de linguagem mais adiante[10]. Ou seja: se o seu bebê pulou essa etapa, isso sozinho não diz nada sobre o desenvolvimento dele.

Estilos de engatinhar (todos normais)

Quando o bebê engatinha, ele pode fazer isso de formas bem diferentes — e nenhuma delas é “mais correta” que a outra. Alguns exemplos reconhecidos como variações normais[5]:

  • Clássico: sobre mãos e joelhos, movendo braço e perna opostos ao mesmo tempo (padrão cruzado).
  • “De urso”: com braços e pernas esticados, apoiando mãos e pés (em vez de joelhos).
  • Rastejar/”commando crawl”: deslocando-se com a barriga colada no chão.
  • Bumbum-scooting: sentado, se impulsionando com as pernas e as mãos.
  • “De caranguejo”: deslocando-se de lado ou até para trás antes de conseguir ir para frente.
  • Rolando: alguns bebês simplesmente rolam pelo cômodo para chegar aonde querem.

Se o seu bebê inventou um jeito próprio de se locomover que não está nessa lista, provavelmente também está tudo bem — o ponto central é que ele está encontrando uma forma de explorar o ambiente com o corpo que tem, no momento em que tem.

Como estimular o movimento com segurança

Não existe brinquedo, aparelho ou produto comprovadamente capaz de “ensinar” um bebê a engatinhar. O que de fato tem respaldo é dar a ele oportunidade e espaço para desenvolver força e controle do próprio corpo — e a principal ferramenta para isso é o tempo de barriga (tummy time).

A recomendação é começar sessões curtas de tempo de barriga já nos primeiros dias após a alta da maternidade, sempre com o bebê acordado e sob supervisão direta — nunca durante o sono, já que dormir de barriga para baixo aumenta o risco de morte súbita. No início, algumas sessões de 3 a 5 minutos, duas a três vezes ao dia, já ajudam; a duração pode ir aumentando conforme o bebê cresce e ganha tolerância[6]. Esse tempo fortalece pescoço, ombros e braços — a base física que, mais adiante, sustenta o engatinhar (em qualquer estilo) e, depois, o andar.

Além disso, oferecer espaço livre e seguro no chão, sem excesso de restrição em bebês conforto, carrinho ou colo o dia inteiro, dá ao bebê chance de praticar movimento por conta própria, no ritmo dele.

Andadores: o que evitar

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) é direta: andadores de bebê com rodinhas são considerados perigosos e desnecessários. A entidade defende a proibição da fabricação e da venda desses produtos no Brasil — medida que já está em vigor no Canadá desde 2007[1].

Os números citados pela SBP ajudam a entender por que a recomendação é tão enfática: estima-se cerca de 10 atendimentos de emergência por 1.000 crianças menores de 1 ano relacionados ao uso de andador, sendo que cerca de um terço desses atendimentos são casos graves, exigindo internação hospitalar. Entre os casos mais graves, aproximadamente 80% envolvem quedas de escada[1].

Além do risco de acidente, há outro ponto pouco falado: o andador não ajuda o desenvolvimento motor — pelo contrário. Segundo a própria SBP, bebês que usam andador costumam levar mais tempo para ficar em pé e caminhar sem apoio, além de engatinharem menos[1]. Essa observação é reforçada pela AAP (American Academy of Pediatrics), que também afirma que andadores não ajudam o bebê a aprender a andar e podem atrasar o início da marcha independente[7].

Como alternativa segura para os momentos em que a família precisa que o bebê fique contido e entretido, a AAP recomenda opções que não têm rodas: centros de atividades estacionários, cercadinhos e tapetes de brincar, sempre combinados com bastante espaço aberto e supervisionado no chão para o bebê se mover livremente[7].

Quando conversar com o pediatra

Pular o engatinhar, por si só, não costuma ser motivo de preocupação. Mas existem alguns sinais que merecem ser levados à consulta pediátrica — não como uma lista de alarme, e sim como pontos que vale a pena observar e conversar com quem acompanha seu bebê de perto:

  • Assimetria persistente e marcante: o bebê usa sistematicamente só um lado do corpo para se mover, vira a cabeça sempre para o mesmo lado, ou arrasta uma perna de forma consistente, sem nunca alternar (preferir um lado ocasionalmente é comum e não é motivo de preocupação — o que pede atenção é o padrão que nunca varia).
  • Tônus muscular muito diferente do esperado: um corpo muito “molinho”, como se faltasse sustentação, ou muito rígido, resistindo bastante ao movimento[9].
  • Nenhuma tentativa de deslocamento independente — em qualquer estilo, não só o clássico — por volta dos 9 a 12 meses costuma ser um assunto natural para trazer à consulta de rotina dessa fase, sem que isso represente um prazo rígido: cada consulta de acompanhamento é a oportunidade certa para conversar sobre o ritmo do seu bebê.
  • Perda de uma habilidade que o bebê já tinha conquistado — por exemplo, um bebê que já sentava sozinho e parou de conseguir sentar. Esse é o sinal que sempre merece avaliação: qualquer regressão motora, por menor que pareça, deve ser conversada com o pediatra o quanto antes. Não é algo para “esperar para ver” — é um ponto que pede avaliação profissional direta, sem se apoiar em suposições sobre a causa.

Nenhum desses sinais, isoladamente, significa um diagnóstico. O papel do pediatra é justamente avaliar o quadro completo — histórico, exame físico e acompanhamento ao longo do tempo — algo que não é possível concluir por observação em casa ou por comparação com outros bebês.

As janelas citadas aqui foram estabelecidas com bebês nascidos a termo e saudáveis. Se o seu bebê nasceu prematuro, pediatras costumam considerar a idade corrigida — a idade cronológica menos as semanas que faltaram para completar a gestação — em vez da idade cronológica, geralmente até os 2 anos[12]. Vale conversar com o pediatra sobre o ritmo esperado de desenvolvimento para o caso específico do seu bebê.

Quem pode ajudar

O pediatra que acompanha seu bebê é a referência principal para qualquer dúvida sobre o desenvolvimento motor, incluindo o ritmo de engatinhar, tônus muscular e possíveis sinais de assimetria. As consultas de rotina dos 9 e dos 12 meses, previstas na Caderneta de Saúde da Criança, são momentos formais para essa avaliação[11][2]. Se houver sinais de regressão ou qualquer preocupação persistente, não é preciso esperar a próxima consulta agendada — vale procurar atendimento antes.

Fontes e revisão

Este conteúdo foi preparado pela equipe editorial do Dicas para Mães com base nas fontes citadas abaixo. Classificado como risco editorial médio, está publicado como conteúdo pronto e transparente, mas ainda não passou por revisão profissional especializada. Este texto não substitui a avaliação de um pediatra, que conhece o histórico completo do seu bebê.

  1. [1] Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Andador: perigoso e desnecessário.
  2. [2] Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Campanha da Caderneta da Criança — Avaliação do Desenvolvimento de 9 e 12 meses.
  3. [3] Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Cartilha de Desenvolvimento (2 meses a 5 anos).
  4. [4] American Academy of Pediatrics / HealthyChildren.org. I’ve heard that if a baby skips crawling, they may have trouble reading later. Is this true?
  5. [5] American Academy of Pediatrics / HealthyChildren.org. Crawling Styles.
  6. [6] American Academy of Pediatrics / HealthyChildren.org. Back to Sleep, Tummy to Play.
  7. [7] American Academy of Pediatrics / HealthyChildren.org. Baby Walkers: A Dangerous Choice.
  8. [8] CDC. Learn the Signs. Act Early.
  9. [9] Cleveland Clinic. Informações sobre tônus muscular (hipotonia e hipertonia) em bebês.
  10. [10] Psychology Today — Dra. Cara Goodwin (psicóloga clínica). Does It Matter If Your Child Skips Crawling?
  11. [11] Ministério da Saúde. Caderneta de Saúde da Criança.
  12. [12] Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). A criança prematura: suas peculiaridades e o papel da família; American Academy of Pediatrics/HealthyChildren.org. Corrected Age For Preemies.

Publicação e revisão

Publicado em: 8 de agosto, 2026 · Atualizado em: 17 de agosto, 2026

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