Dor ao amamentar e fissuras: como melhorar a pega e quando buscar ajuda

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Sentir dor ao amamentar não é “frescura” nem algo que toda mãe simplesmente precisa aguentar. Este artigo trata do período inicial do pós-parto — as primeiras semanas em que a amamentação ainda está sendo estabelecida, quando dor e fissura no mamilo são mais comuns. (Se a dor começou meses depois, quando o bebê já tem dentes ou passou a morder, as causas costumam ser outras e não são o foco deste texto.) Um desconforto leve nos primeiríssimos segundos da mamada, enquanto o bebê ajusta a pega, pode acontecer nesse início — mas dor que continua durante toda a mamada, que piora, ou mamilo rachado e sangrando, é sinal de que algo precisa ser corrigido, quase sempre relacionado à pega. A boa notícia: a pega pode ser corrigida na prática, e mais abaixo você encontra o passo a passo de como fazer isso com as mãos, mamada após mamada.

Em resumo

  • A pega inadequada é a causa mais comum de dor e fissura no mamilo, segundo o Protocolo Clínico #26 da Academy of Breastfeeding Medicine (ABM) e orientações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)[1][2].
  • Uma pega bem-feita — boca bem aberta, queixo tocando a mama, lábios virados para fora, mais aréola visível acima do lábio superior do que abaixo — ajuda a prevenir mamilos doloridos e rachados, e pode ser ativamente corrigida com alguns ajustes práticos (veja o passo a passo abaixo)[3][2].
  • Outras causas comuns de fissura incluem posicionamento incorreto do corpo do bebê e flange (funil) do extrator de leite em tamanho errado[4][1].
  • Nenhum tratamento tópico — leite materno, lanolina ou curativo de hidrogel — tem evidência de ser superior aos demais[5][6].
  • Candidíase mamária como causa de dor no mamilo é um diagnóstico controverso, sem base científica sólida confirmada em revisão sistemática[7].
  • Vermelhidão, calor local, febre ou secreção purulenta no mamilo pedem avaliação médica — não é algo para cuidar só em casa[4][8].

Como é uma pega que não machuca

Uma pega eficiente e confortável tem algumas características visíveis. A boca do bebê fica bem aberta, quase como um bocejo, antes de abocanhar o peito. O queixo encosta na mama, e o nariz fica livre ou levemente tocando. Os lábios ficam virados para fora (“de peixinho”), não para dentro. E a pega é levemente assimétrica: normalmente dá para ver mais aréola acima do lábio superior do bebê do que abaixo do lábio inferior, porque a boca abocanha mais a parte de baixo do peito[3][9].

Quando a pega é rasa — o bebê pega só a ponta do mamilo, sem abocanhar bem a aréola —, o mamilo fica sendo comprimido entre a língua e o céu da boca de um jeito que machuca e, com o tempo, causa rachadura. Um sinal prático: se o mamilo sai da mamada achatado, comprimido ou com uma marca de compressão de um lado, isso costuma indicar que a pega não está adequada[1]. A diferença entre o desconforto leve dos primeiríssimos segundos (mencionado acima) e a dor que persiste é justamente essa: dor que continua ao longo de toda a mamada, sem melhorar, não é ajuste passageiro — é sinal de que a técnica precisa mudar[1][9][4].

Como corrigir a pega, passo a passo

A pega pode ser ativamente corrigida — não é uma questão de sorte, nem de “bebês que já nascem sabendo mamar direito”. Veja o que fazer com as mãos e o corpo, na prática, com base em protocolos clínicos e nas orientações da Organização Mundial da Saúde/UNICEF e da Academy of Breastfeeding Medicine[1][9][3]:

  1. Alinhe o corpo inteiro do bebê, não só a cabeça. Vire o bebê para você, barriga com barriga, com orelha, ombro e quadril numa linha reta — sem o pescoço torcido para mamar. O nariz do bebê deve ficar na altura do mamilo, não abaixo dele[3][9].
  2. Apoie a mama com a mão em “C”. Polegar por cima, dedos por baixo, afastados da aréola, oferecendo o peito sem empurrar a cabeça do bebê para frente.
  3. Espere a boca abrir bem larga antes de aproximar o bebê. Toque levemente o mamilo no lábio superior ou no nariz do bebê e espere ele abrir a boca quase como um bocejo. Se abrir só um pouco, espere mais um instante — entrar com a boca pouco aberta é a causa mais comum de pega rasa[9][3].
  4. Leve o bebê até o peito com o queixo primeiro — não o peito até o bebê. Quando a boca estiver bem aberta, aproxime o bebê rapidamente pelas costas/ombros (sem empurrar a cabeça), deixando o queixo tocar a mama primeiro e o nariz por último. Isso faz a boca abocanhar mais aréola por baixo do que por cima — a pega assimétrica que ajuda a proteger o mamilo[9][1].
  5. Confira os sinais depois que ele pegar: lábios virados para fora, bochechas arredondadas (não puxadas para dentro), queixo afundado na mama, mais aréola visível acima da boca do que abaixo, sucção lenta e profunda em vez de rápida e superficial[3][9].
  6. Se doer, não force continuar até o fim da mamada. Introduza delicadamente um dedo limpo no canto da boca do bebê para quebrar a sucção, retire e tente pegar de novo do zero[1].

Vale repetir esse processo em várias mamadas seguidas — a pega tende a melhorar com prática. Mas se, depois de algumas tentativas de ajuste, a dor continuar do mesmo jeito, esse é o momento de buscar uma avaliação presencial (ver “Quem pode ajudar”, mais abaixo): alguns ajustes finos só se percebem vendo mãe e bebê mamando ao vivo[1].

Posso continuar amamentando com o mamilo rachado ou sangrando?

Essa é uma das dúvidas mais urgentes de quem está com fissura — e também uma das mais mal respondidas em buscas na internet. O protocolo de referência da Academy of Breastfeeding Medicine sobre dor persistente na amamentação orienta que, na maioria dos casos, o caminho não é parar de amamentar, e sim corrigir a pega, que costuma ser a intervenção mais eficaz[1]. Ou seja: ver um pouco de sangue no mamilo, por si só, não significa automaticamente que a mãe precisa suspender a amamentação direta — mas a decisão em cada caso deve ser conversada com um profissional (ver “Quando procurar ajuda”, abaixo).

Já sobre se pequenas quantidades de sangue misturadas ao leite fazem mal ao bebê especificamente, essa pergunta não foi confirmada por nenhuma das fontes clínicas consultadas para este artigo — e este texto não vai responder isso com uma garantia inventada. Se há sangramento visível, dor intensa, ou dúvida sobre continuar amamentando daquele jeito, o caminho certo é perguntar diretamente ao pediatra do bebê ou a uma consultora de lactação (IBCLC), que podem avaliar a fissura ao vivo — em vez de decidir sozinha com base em busca na internet.

Além da pega: outras causas comuns de fissura

Nem toda fissura vem só de erro de pega. Outras causas comuns incluem:

  • Posicionamento do corpo do bebê — quando o bebê não está bem alinhado (barriga com barriga, corpo apoiado, como no passo a passo acima), fica mais difícil manter uma pega profunda mesmo que a mãe ajuste só a boca[4][1].
  • Flange (funil) de tamanho errado no extrator de leite — usar uma bomba com o funil grande ou pequeno demais para o mamilo é uma causa reconhecida de trauma mamilar, separada da amamentação direta[4][1].
  • Língua presa (anquiloglossia) — quando o freio da língua do bebê é curto, pode dificultar uma pega profunda. Mas aqui vale uma ressalva importante: um relatório recente da Academia Americana de Pediatria (AAP) aponta que o diagnóstico de língua presa está sendo feito — e tratado cirurgicamente, com frenotomia — em excesso, muitas vezes sem que isso seja de fato a causa da dificuldade de amamentar[10]. Um posicionamento da Academy of Breastfeeding Medicine (ABM) reforça que a cirurgia não deveria ser a primeira resposta automática: o caminho mais seguro é uma avaliação profissional e interdisciplinar antes de decidir por qualquer procedimento[11].

Cuidados com a fissura: o que a evidência realmente mostra

Existem várias opções usadas para aliviar a dor e ajudar a cicatrização de mamilos machucados, e é importante ter expectativas realistas sobre cada uma — nenhuma delas se mostrou claramente superior às outras nos estudos disponíveis:

  • Leite materno passado no mamilo é uma prática tradicional, de baixo custo e baixo risco, mas revisões que compararam intervenções para trauma mamilar não encontraram resultados consistentemente melhores com o leite materno do que com outras opções[5][6].
  • Lanolina purificada aparece entre as opções com algum respaldo de eficácia em revisões sobre o tema, mas isso não significa que seja comprovadamente melhor do que o leite materno ou outras alternativas estudadas — os resultados entre estudos são heterogêneos[5].
  • Curativos de hidrogel, usados entre as mamadas para manter um ambiente úmido e aliviar a dor, são mencionados como opção em materiais clínicos[4], mas revisões sistemáticas não conseguiram confirmá-los como intervenção comprovadamente eficaz frente às demais, justamente pela heterogeneidade dos estudos[5].

O ponto mais importante, sustentado com mais consistência pela literatura, é outro: corrigir a pega é a intervenção fundamental, e frequentemente resolve a dor mesmo antes de qualquer tratamento tópico entrar em cena[1][8][2]. Tratamentos na pele do mamilo podem ajudar no conforto enquanto isso, mas não substituem o ajuste da técnica — daí a importância do passo a passo descrito mais acima.

Em casos de trauma mamilar grave — rachaduras extensas, muito dolorosas —, pode ser necessário afastar o bebê do peito por um período curto, mantendo a produção de leite por ordenha ou bomba, até a pele cicatrizar o suficiente para retomar a amamentação direta com a pega corrigida. Essa é uma orientação específica para casos graves, não uma recomendação padrão para qualquer fissura leve ou moderada[1].

Mamilo rachado e risco de mastite

Mamilos rachados são um fator de risco reconhecido para mastite, porque a fissura pode funcionar como porta de entrada para bactérias — embora não seja a única causa, já que estase do leite e desequilíbrio da microbiota do leite também têm papel[8][12][13]. Na prática, isso quer dizer que cuidar da fissura e corrigir a pega também é uma forma de reduzir esse risco — e reforça por que vermelhidão, calor local ou febre (ver a seguir) nunca devem ser ignorados.

E a candidíase mamária?

É comum ouvir falar de candidíase (ou “sapinho”) no mamilo como explicação para dor persistente durante a amamentação. Vale saber que esse é um diagnóstico controverso: uma revisão sistemática publicada em 2017 não encontrou uma base científica sólida para essa associação — em boa parte dos estudos analisados, mulheres diagnosticadas clinicamente com candidíase mamária não tinham confirmação laboratorial da presença do fungo[7]. O próprio protocolo clínico de referência sobre dor persistente na amamentação também trata a candidíase como uma causa debatida, não confirmada, entre as possíveis explicações de dor que não melhora só com ajuste de pega[1]. Isso não significa que a dor não seja real, mas sim que atribuí-la à candidíase sem investigação cuidadosa pode levar a tratamentos desnecessários. Se essa hipótese for levantada, o caminho seguro é conversar com um profissional de saúde, que pode avaliar o quadro e, se for realmente o caso, indicar a conduta apropriada — nunca se automedicar.

Quando procurar ajuda

Não é preciso esperar a situação piorar para pedir ajuda. Procure avaliação profissional quando:

  • A dor persiste durante toda a mamada e não melhora, mesmo depois de tentar ajustar a pega com o passo a passo acima[1][4];
  • O mamilo está rachado, sangrando, ou a fissura está piorando em vez de cicatrizar[4][1];
  • Aparecem sinais de infecção local: vermelhidão, calor, inchaço na região, secreção com aparência de pus, ou febre e mal-estar do tipo gripal[4][8]. Esses sinais merecem avaliação médica logo, e não devem ser tratados só com cuidados tópicos em casa.

Quem pode ajudar

A consultora de lactação certificada (IBCLC) é a profissional mais indicada para avaliar a pega, o posicionamento e a técnica de amamentação na prática, ao vivo, e ajustar o que for necessário[1]. O pediatra do bebê também acompanha o ganho de peso, pode avaliar questões como língua presa, e orienta sobre sinais de infecção[1][14]. Quando há suspeita de candidíase ou de infecção, é o profissional de saúde — pediatra, ginecologista/obstetra ou clínico — quem avalia e, se necessário, indica a medicação apropriada; isso nunca deve ser decidido por conta própria.

Nem toda mãe tem acesso fácil a uma IBCLC particular, e o SUS também oferece caminhos gratuitos de apoio à amamentação. Os bancos de leite humano da rede pública (rBLH) não fazem só coleta de leite: também oferecem orientação e apoio à amamentação, incluindo dificuldades de pega[15]. Hospitais com o selo Amigo da Criança devem garantir, na alta, encaminhamento para a atenção básica e acesso a grupos de apoio à amamentação — ou seja, o suporte não termina quando mãe e bebê saem do hospital[16]. E o acompanhamento de rotina na Unidade Básica de Saúde (puericultura, incluindo a consulta da primeira semana) também costuma incluir orientação sobre amamentação e avaliação de dificuldades[17].

Limites deste conteúdo

Este artigo cobre a fissura e a dor de mamilo ligadas principalmente a pega, posicionamento e flange de bomba no início da amamentação. Ele não aprofunda situações que também afetam a pega e merecem suporte especializado à parte — mamilos planos ou invertidos, bebês prematuros (que podem ter sucção mais fraca ou imatura) e casos de dificuldade de pega que não melhoram com os ajustes descritos aqui. Se esse for o seu caso, o caminho é o mesmo: procurar uma IBCLC ou o pediatra para uma avaliação individualizada, presencial.

Fontes e revisão

Este conteúdo ainda está em revisão editorial/profissional. Não substitui avaliação de um profissional de saúde. Foi preparado pela equipe editorial do Dicas para Mães com base nas fontes listadas abaixo e passará por revisão profissional especializada antes de receber esse selo.

  1. [1] Academy of Breastfeeding Medicine. Clinical Protocol #26: Persistent Pain with Breastfeeding (2016).
  2. [2] Sociedade Brasileira de Pediatria. Amamentação sem mitos.
  3. [3] WHO/UNICEF Baby-Friendly Hospital Initiative. Helping with a Breastfeed (via NCBI Bookshelf).
  4. [4] Cleveland Clinic. Cracked Nipple (Nipple Fissure).
  5. [5] SciELO / Acta Paulista de Enfermagem. Intervenções eficazes para tratamento de trauma mamilar decorrente da amamentação: revisão sistemática.
  6. [6] Dennis CL, Jackson K, Watson J. Interventions for treating painful nipples among breastfeeding women. Cochrane Database of Systematic Reviews (2014).
  7. [7] Amir LH et al. Mammary candidiasis: A medical condition without scientific evidence? PLOS ONE (2017).
  8. [8] AAFP. Management of Mastitis in Breastfeeding Women (2008).
  9. [9] AAP/HealthyChildren.org. Ensuring Proper Latch On While Breastfeeding.
  10. [10] AAP (Pediatrics, ago/2024), via HealthyChildren.org. AAP report addresses rise in tongue-tie diagnoses for breastfeeding concerns.
  11. [11] Academy of Breastfeeding Medicine. Position Statement on Ankyloglossia (2021).
  12. [12] Estudo caso-controle. Risk factors for infectious mastitis in breastfeeding women (mulheres na Espanha).
  13. [13] NCBI Bookshelf / StatPearls. Acute Mastitis.
  14. [14] AAP/HealthyChildren.org. Treating Breast Pain.
  15. [15] rBLH Brasil (Fiocruz / Ministério da Saúde). Entenda o que é a rBLH.
  16. [16] SciELO / Revista Paulista de Pediatria. Baby-Friendly Hospital Initiative: 25 years of experience in Brazil.
  17. [17] Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado — Puericultura, Recém-nascido.

Publicação e revisão

Publicado em: 8 de agosto, 2026 · Atualizado em: 14 de agosto, 2026

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